segunda-feira, 28 de abril de 2008

Leio na primeira página do Madre Cacau, Timor pelo jornalista Pedro Rosa Mendes lançado na semana passada na Feira do Livro em Português de Díli (compra-me um que aqui esgotou! E outro para ti, o livro é lindo):

“O Avô mais alto rompe no céu a primeira alvorada. Vejo a luz orientar o tempo.

Cumes profundos: mistério, medo e fascínio. Sagrada montanha. Montanha justa.”

Impossível que em mim hoje não esteja pousada uma pele sensível - das que mergulharam em águas termais demasiado ácidas . Hoje, visto o tais e celebro interiormente a cerimónia do respeito pelo que aconteceu há um ano atrás. Julgo que em trezentos e sessenta e seis não houve um dia que passasse sem que me lembrasse, ora por um pé dorido, ora por evocação de um querido, ora por um plano distorcido, dessa fatalidade.”Fora ou acima da experiência quotidiana”, diz ele, ainda a propósito do Ramelau. Indeed, respondo para dentro, qual eco da montanha.

Quero muito voltar lá, e ver o sítio, não tanto o cume. Quem lá foi entretanto diz que é impressionante, tornou-se ponto de interesse nas investidas turísticas, correm boatos sobre a velocidade do jeep, a capacidade do condutor, o espírito dos viajantes. As minhas memórias só encontram emoções. Não há sensações reflectidas em imagens, cheiros, sons, dores. Só o abalo intenso que a minha posição na paisagem despertava em mim. Não ficou o frio da altitude, nem o desconforto da terra molhada, das pedras nas costas. Sons não há, só a barreira invisível que não me permitia comunicar com os timorenses que por ali flutuavam, só o agudo na minha espinha dorsal a cada berro de socorro que o outro dava, só o vazio no estômago quando alguém bem longe dali dizia que estava bem, baixinho, por não conseguir mais alto. O formigueiro no peito quente com os sussurros ao meu ouvido.

Não quero voltar já. A dor era a da morte, é tão fácil morrer. Estás a ouvir? Também podes morrer, pensa nisso na 1ª pessoa. Jamais aquela sensação de fragilidade dos corpos, de morte ao virar da esquina ao cair da estrada. O limbo em meio segundo. Fechar os olhos, quiçá não os abrir mais.

Quando decidi regressar não sabia bem a minha motivação: se romântica, se teimosa, se iludida, se natural. O poeta timorense Abé, no debate sobre o futuro de Timor, falou em “corações serenos mentes tranquilas” de uma “beleza de paz que será verde”, como as lágrimas de jó que existiriam ali pela montanha à minha volta. Eu não as lembro, mas acredito Eu quero ser timorense, quero aprender todas as histórias, a língua, quero estar em sintonia com a natureza, despertar os meus sentidos para a entender. É ela quem reina no crocodilo que se fez ilha. Já lamentei, já perdoei o acidente, já aceitei a minha ingenuidade pós-traumática. Cada qual com a sua paz.

4 bitaites:

SpootlessMind disse...

É bom ler-te... é bom sentir Timor através de ti.. como uma vez te disse, deixaste qualquer coisa aí.. que te fez voltar..
Beijos grandes
Inex

mãenuela disse...

"...montanha justa...": contigo foi.
Senão, como entender que te deixasse soltar da terra molhada, do emaranhado das arvores tombadas, da nebelina que imagino.
Tens de voltar,quando tiveres o coração sereno e a mente tranquila. Para agradeceres o ter-te servido de abrigo e deixar-te voltar para este lado do limbo.

Joo Magoo disse...

há que ter aulas com a natureza e aprender bem as lições que ela nos dá, podemos aprender dela muito mais do que em anos de estudo académico...
para aprender o desaprendido é importante estar sozinho, escutar, encontrar a expressão das folhas quando o vento passa por elas... e por nós...

Linda nunca serás timorense, isso é certo, mas tenho a certeza que ainda aprenderás muito com eles e que é como portugesa que tens muito para lhes ensinar também. Isso é que é importante, é nesta troca de conhecimentos que se dará a evolução para um mundo bom.

Estou contigo na cerimónia de agradecimento ao altar montanhoso do crocodilo, muitas lágrimas de Jo pela felicidade de te ter na vida hermana.

Muito orgulho na tua força e coragem.

Beijos e abraços com a luz do sol

Jo

marie disse...

"- Viajas para reviver o teu passado? - era agora a pergunta de Kan, que também podia ser formulada assim: - Viajas para achar o teu futuro?
E a resposta de Marco: O algures é um espelho em negativo. O viajante reconhece o pouco que é seu, descobrindo o muito que não teve nem terá."

Sinto-te tão livre.
Maria.

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