quarta-feira, 2 de abril de 2008

Essa propriedade física, a inércia, comanda os meus dias, para o bem e para o mal. Não julguem que é torpor, é só uma incapacidade do meu corpo modificar o estado de contemplação ou de actividade em que se encontra: posso passar uma tarde inteira a dormir ou horas seguidas a preparar disciplinas com afinco e planos com empenho, a produzir materiais, convites, powerpoints, problemas, textos. E é a isso que eu e os cientistas chamamos inércia.

Estou cheia de vontade, nem que a vontade seja só ficar quando chove cães e gatos. Mas julgo que isso vai passar depois da saudação de hoje ao Sol.

O ciclo de “Cinema Paraíso” vai andar para a frente. Já angariei habitantes do bairro para se juntarem ao meu plano de alongamentos diário (chamei-lhe “Hora do Mosquito”, às 19h, no jardim para marrecos e empenados). Recebi de presente emprestado transporte em duas rodas para fazer investidas à Areia Branca, mercados e arredores.

E na Universidade, claro, estou cheia de ideias. Tenho aulas todos os dias das 8 às 11h (primeiro Gestão de Sistemas Computacionais, depois Inteligência Artificial) com a mesma turma de 15 do 3º ano. Vou ficar a conhecê-los bem. O Euclides é meu aluno às duas disciplinas, e esteve a fazer como trabalho de estágio em Janeiro / Fevereiro a instalação e configuração do Moodle na UNTL. Para além disso criou agora a sua empresa de produtos locais – arroz e feijão verde – e está cheio de planos para mudar Timor. É raro conhecer alunos assim.

Hoje a aula de Inteligência Artificial roçou o filosófico e deixei-os bastante indignados: então há computadores que imitam corpos de pessoas, e sensações humanas, e ideias abstractas? Até arte criam? Fico sempre um pouco frustrada quando penso que daqueles devaneios seguem para as suas tendas, num campo de deslocados, num jardim municipal qualquer.

Anteontem depois de um jantar surreal a três no Café Brasil (ficamos uma hora e tal à espera que trouxessem o caril de peixe, e só aí, já a stressar, nos lembramos que ainda não tínhamos pedido nada – também não nos perguntaram), ao regressar a casa pela rua da Universidade, cruzamo-nos com o colega do carrinho que vende bolachas, água, cervejas, cigarros, entre outros “Então, para onde vais?”, diz ele. Eu fiquei meia confusa “Para onde? Bem, para o Bairro em Colmera…” e ainda nem tinha acabado e já me estava a partir a rir. Nós dizemos “Como vais?”, eles dizem “Ba ne’ebe?”, e traduzem “Para onde vais?”. A isto tudo só se responde, bem, obrigada, diak, obrigadu barak. Nem “vou a pé”, nem “para casa”. Sim, nem um nem outro. Ele há coisas…

1 bitaites:

mãenuela disse...

São os Euclides que fazem a terra girar.

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