quarta-feira, 23 de abril de 2008

Quando cheguei ao «eco-lodge» de Ataúro, peguei no livro de visitas para me ler de há um ano atrás. 31 de Março de 2007, “Genuíno, único, desconcertante” e quase me dava para a lamechice ao ler testemunhos meus e doutros que estavam comigo. Na altura sabia lá eu como é que o novelo se desenrolaria… É bom poder voltar e viver tudo de novo, igualmente único.

Como primos, de 12 anos…

…andámos descalços, um atrás do outro, por caminhos estreitos de terra com as espigas de milho alinhadas à direita e o areal comprido da maré vaza do lado esquerdo, a arrancar flores e ervilhas comestíveis.
…ao final da tarde, acocorados com os pés no mar levantámos pedras para conhecer as formas das mil e uma espécies - estrelas do mar, peixinhos, conchas vivas, anémonas, algas, caranguejos, búzios com patas.
…tocámos e cantámos o arménio é um trolha da areosa 327 vezes. Quando a história de vida que a música retrata já cansava, passámos ao improviso de outras vidas àquele ritmo.
…à uma da manhã percorremos a margem entre a areia e o mar, eu com uma lanterna a apontar as plantas, o outro junto à água, para caçar os caranguejos fugitivos com as tenazes apontadas ao céu entre mim e ele. Assámo-los vivos na fogueira e comemos com casca.
…até às três jogámos Bintang, levei uma abada e recebi uma grande lição de estratégia do aluno a quem dei um zero a Inteligência Artificial no ano passado.

Às seis da manhã vi o Sol nascer no mar.
Fui a única, mas não senti nem um dos 3 terramotos que houve durante dia e noite.

Às 7 seguimos a penantes em direcção a Makili pelas montanhas da «ilha». Apesar de ser do outro lado da falésia que a praia tem, o caminho pela areia deixou de existir pelos terramotos da véspera. Serpenteamos o caminho denso, as roupas completamente encharcadas em suor, ainda a cantar o arménio. O objectivo deixa de ser o destino e passa a ser a água que há-de haver.

…fizemos corridas a subir caminhos íngremes, atravessamos mais campos de milho.

E chegámos a uma aldeia de palhotas, isolada do mundo, mas que água, escassa na ilha, só a tem canalizada. Aparece um senhor de catana na mão, pergunto já a alucinar pela altitude, pela SEDE “bé ne’ebe?” / água onde?, ele mostra o caminho pelo meio da floresta de bambus gigantes, bananeiras, palmeiras, coqueiros, muito mato, até ao sítio onde as senhoras e crianças da aldeia se lavavam, num cano. A presença masculina incomodava-as, tudo era demasiado intocável, tudo poderia dar uma foto lindíssima, mas vai ficar só nas minhas memórias.

Entrámos nas casas das pessoas, peguei num bebé de mês e falei com a mãe quase sem recorrer a palavras, observada pelos 9 filhos em redor, ofereceram-nos côcos, depois de me saciar com a água ele pega na catana e saca o branco do fruto, prepara-me uma bengala a partir duma árvore qualquer, seguimos, seguimos, paramos com alegria. Passadas 4 horas já vemos a praia ao fundo, os pés dormentes latejam em sonhos com o mar a massajá-los.



Ouvimos dizer por ali que o padre italiano veio da Vila (onde estamos alojados) para Makili dizer/fazer/dar a missa e que tem um barco. Voltámos à aldeia, pedimos-lhe boleia, ele diz que sim há sempre espaço para mais um. Podia ter avisado que o barco era de quatro, e iríamos sete encaixados na canoa, pelo mar revolto das horas da tarde, dos terramotos, da Lua cheia. Maldisse de ter deixado o colete no eco-lodge, mas o mar não estava previsto na caminhada. Tive tanto medo que contei a minha vida toda, cantei aos berros, rezei preces animistas ensinadas por uma aluna depois do acidente, pensei na vida dos conquistadores portugueses, senti muito medo. Ele tirava com baldes a água que entrava.

Quando chegamos à palhota, eu calada prestes a explodir, e foi o que fiz quando entrei sozinha no meu descanso. Brincar com a vida não.

Ai, mas nem por isso deixo de estar encantadíssima.

6 bitaites:

styska disse...

que fotos lindas, tudo aí parece ter uma cor diferente :) gosto de vir aqui ler as histórias que contas, dá vontade de ir a correr para timor!
para a próxima é melhor veres o barco antes de te meteres nele... cruzes, acho que eu tinha morrido mesmo mas de medo!

mãenuela disse...

ó sarinha, não te metas em barcos a mmeter água...
que lindo fim de semana tiveste!
Nós por cá, todos bem

Anónimo disse...

uauuu
Que aventura!!!! estou encantada com ataúro e como já vi umas fotos desse paraíso imagino como deve ter sido mágico o fim de semana, nada melhor do que uma boa companhia para viver isso tudo. Terramotos,tempestade no mar..não falta acção por aí. ;)

e continua...Aguardo :)

Beijos,
Bárbara

Nolasco disse...

foi maravilha no fim de semana contigo, naquela momento que eu senti o valor das coisas que eu fazia antes como servico que tenho fazer para sobreviver. uma coisa que se calhar tu nao sabias que e' Gosto ver as pessoas felizes na sua vida e quando tu estas com medo, triste e atrapalhado com penssamento e' facil de ver na tua cara...fica feia....somos animais intelegentes e temos de tentar a sair das coisas que nos nao gostamos....foi muito bom estar contigo, beijinhos grande nao grita como ah....eh...ai...carangueso. na foto tou ajudar as pessoas que tem medo.

Joo Magoo disse...

tanta coisa que a natureza nos pode ensinar sobre o mundo, o sol, o universo... este gira volta das estrelas.
k vontade de caminhar pelo mato contigo e dar-te os cocos das árvores a beber...

diz-se celebrar missa :)

Beijos mil corazon aventurero

Golden Boy disse...

"Timor,
O teu segredo, a tua indelével brancura,
De extremo peninsular que por meia ilha se apaixona,
É do teu avô crocodilo a viagem, da criança, a travessura.
Como uma chávena de café negro sobre o nappron branco
Que cada vez que há visitas está presente,
O teu segredo é também a história do igual fazer-se diferente.

Timor,
Deixa-me chamar-te Terra-Rosa, ardente
E amar-te uma vez mais, agora sem praia e sem esteira,
De um amor de ir e vir, de ciência, de poesia e da utopia
De nos conhecermos para além dessa alegria contida
E de nos re-inventarmos à nossa maneira,
Para que juntos, dos antípodas, lutemos por essa humanidade
Em que cada um é toda a humana gente."

I read somewhere how important it is in life, not necessarily to be strong but to feel strong.
To measure yourself at least once.
To find yourself at least once in the most ancient of human conditions.

Keep going Saranowski ;)

Enjoy the most!

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