domingo, 30 de março de 2008


É domingo e chove que deus sabe e ao deus dará, digo isto porque a chuva por aqui se revela religiosa, milagrosa, quase como se os santos todos se tivessem lembrado de mandar baldes e baldes ao mesmo tempo do céu que não têm água mas tintas e vão pintando as flores de ainda mais vermelho, as montanhas de ainda mais verde, os dentes de ainda mais branco, os ceús tão roxos que ofusca.

Que vim eu para aqui fazer?
Agora que penso in loco parece-me que à procura de emoções que no ano passado ficaram um pouco desfocadas pelos últimos acontecimentos. Esqueci-me que comigo não carrego os outros, que são eles comigo que constroem cada experiência, e que claro que nada seria o mesmo.

E é na nostalgia e na descoberta que me desdobro: o que me faz falta e traz saudades, o que me surpreende e traz fôlego.

Enchi o peito e subi pela primeira vez ao Cristo Rei – vim procurar o que já tive, e vim fazer tudo de novo – e naquele ponto onde ele se ergue olho para trás e vejo à direita o paraíso, à esquerda o paraíso, ambos enquadrados num postal qualquer do meu imaginário. Mais uma vez, “que bonito” reproduz-se na minha língua a cada passo de terra autêntica.

4 bitaites:

Annie disse...

sem mais imagens que essa tua, da que tu chamas de "terra de ninguém" e "paraíso", a um tempo só, o arrepio existe. Admiro-te por teres a força do desprendimento, a paixão de ires - ires só, procurando o que te faz feliz. E a Beth Gibbons poderia cantar esta música no meio desse paraíso, mas que não fosse de cara sofrida. Cantaria em soluços de felicidade. Já tenho saudades de sentir um espanto no estômago, por ver beleza à volta. Como essa.

Levitate disse...

Olá,
"ler-te" faz-me perceber o quão é importante não abandonar aquilo que realmente amamos só porque acarreta demasiadas dificuldades. A felicidade está pintada em cada letra dessas palavras coloridas que escreves e consegues transportar esse sentimento e esse espírito a quem as lê.
Boa sorte para toda esta tua experiência. Vive, sonha e respira tudo o que conseguires. Nem sempre é possível regressar ao ponto que deixamos e recomeçar... aproveita.
Muitos beijinhos.
Vou acompanhando os acontecimentos deste lado, desejando ser capaz de fazer algo assim um dia.

mãenuela disse...

Retrato em branco e preto
Antonio carlos jobim

Já conheço os passos dessa estrada
Sei que não vai dar em nada
Seus segredos sei de cór
Já conheço as pedras do caminho
E sei também que ali sozinho
Eu vou ficar, tanto pior
O que é que eu posso contra o encanto
Desse amor que eu nego tanto
Evito tanto
E que no entanto
Volta sempre a enfeitiçar
Com seus mesmos tristes velhos fatos
Que num álbum de retrato
Eu teimo em colecionar

Lá vou eu de novo como um tolo
Procurar o desconsolo
Que cansei de conhecer
Novos dias tristes, noites claras
Versos, cartas, minha cara
Ainda volto a lhe escrever
Pra lhe dizer que isso é pecado
Eu trago o peito tão marcado
De lembranças do passado
E você sabe a razão
Vou colecionar mais um soneto
Outro retrato em branco e preto
A maltratar meu coração

Inês Dias de Carvalho disse...

Não resisto... mas e o:

Começar de Novo de Ivan Lins???:p

Finalmente a veia foto-lírica da sarinha a despertar novamente... FLASH!

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