quinta-feira, 27 de março de 2008

Esta viagem é de loucos e ainda não caí em mim, mas faço uma descrição, para ganhar tempo, do que foram os últimos três dias na terra de ninguém, sem saber horas, nem espaço, nome nem o que ali faço. E o mais incrível é que assim perco três dias da minha vida sem que produza o que quer que seja! Ai Timor… porque lanças tantas vezes na minha cabeça “A ironia da câmara lenta é não nos dar tempo para pensar”?

Em Hong Kong vou meter conversa com alguém de bigode que já tinha visto em Lisboa – ele há coisas: vai também para Timor, dar aulas, de informática, viver no bairro. Também ele quis sempre voltar, por isso como podem imaginar a conversa tem estado boa.

Em Bali, no caminho do aeroporto para o hotel, sinto a crescer dentro de mim “espera aí, eu lembro-me… eu lembro-me disto… Eu já me lembro disto tudo!” O incenso no ar, os espanta espíritos em cada esquina, as oferendas hindus pelo chão em cestinhas com pétalas de flores exóticas, o caos instalado. E, claro, o calor indescritível e a humidade que se cola à minha pele – assim permanecerão até Agosto. Fazemos tchin tchin com sumo de goiaba na varanda do hotel, atiramo-nos para a piscina com um sorriso benvindo-ao-paraíso-enjoy-que-saudades-que-alívio e deixamos que a água que há por ali faça o seu trabalho relaxante e revigorante, para que depois não percamos tempo e nos façamos à estrada. Compro duas calças lindas de trespasse por 5€ (tudo muito bem negociado desde o par por 10€ até aos dois por metade). Caminhamos pelo areal em direcção a leste até ficar escuro, falando Timor ou silenciando outras coisas, até à exaustão.

A sala de embarque do voo para Timor Leste, citando o bigode, tem ambiente de espionagem. Juntam-se ali 50 pessoas brancas, pretas, amarelas, talvez vermelhas, com os trajes mais variados, túnicas, vestidinhos, turbantes, crocs, jeans, coletes à explorador da selva, preto intelectual, écharpes, todas as religiões. Fosse Díli outra cidade qualquer, poderia passar por cosmopolita pela amostra que ali se juntou. Ao aterrar, a humidade homogénea na pele passa a pingas que se formam e escorrem, talvez pelo repelente que entra em acção imediata. O Bairro é o mesmo sem ser, vazio, no frigorifico tenho 6 frascos pequenos de sumo de banana e manga, e um grande de banana e ananás. O bigode aparece e vamos pelo passeio que agora existe comprar coisas, encontrar a Luísa no Hotel Timor e partir-lhe os ossinhos com um abraço, vestir o fato de banho e caminhar até Cristo Rei.

Deixar-me flutuar na maré cheia com os ouvidos mergulhados e ouvir o sussurro das montanhas.

Na Areia Branca já anoiteceu e há gente que se deixa ficar. Já vi melhores pores-do-sol mas sinto naquele momento que quero ficar aqui para sempre, na areia com um cristal no peito a fazer yoga e olhar as estrelas. Quem disse “não se deve voltar ao sítio onde se foi feliz”? Sair é que não.

9 bitaites:

paulomoreirainfo disse...

acho q fui eu q disse, ou entao pensei que disse. mas tb nao tenho a certeza sobre isso... acho q podemos ser felizes em qq lado... bj

m. disse...

se a inveja matasse...

Anónimo disse...

É tão bom sentir-te bem!:)
Beijo*
R

Joo Magoo disse...

Que booooooom ler-te assim sari... e sentir-me feliz, quer dizer que está feliz :) seguro que esses dias de viagem foram muito mais que dias perdidos, foi de certeza um longo caminho o que percorreste para voltar aí mas tempo perdido não. acho que tal coisa não existe...tudo faz parte e todos os momentos são tempo em que quanto mai não seja tu és, cresces e aprendes.
que bom bigodes... que bom humidades... que bom sumo de banana e manga... que bom areia branca e silêncio de mar azul turquesa... que bom cristais no peito ao por do sol... :)
Concordo contigo, acho que devemos sempre estar onde nos sentimos bem...não há nada que nos prenda. Amo as plantas, mas não tenho raízes nos pés. Sou pássaro e tenho asas nos braços.
Somos pássaros.

Beijoooo boooom

marie disse...

transpiras vida e verdade como em nenhum post anterior...
(embora goste de todos os posts anteriores)

Annie disse...

lindo, miuda, lindo! Porque te perdes assim de amores por Timor?

Anónimo disse...

hummm que bom!!! enterrar os pés em areia branca e flutuar num mar, imagino eu, azul turquesa ou verde ou laranja e amarelo.
Nada como começar um dia de trabalho a sonhar e a sentir tudo isso. Neste momento o que avisto de mais exótico são as árvores da rotunda da boavista que começam a florir.
Desfruta!! estás rodeada do melhor que a natureza tem para nos oferecer,imagino como te deves sentir bem..fico muito contente :) A Sari de volta à "terra do nunca"!!
Beijoss
Bárbara

mãenuela disse...

Porque
Sofia de Melo Breyner

Porque os outros se mascaram mas tu não
Porque os outros usam a virtude
Para comprar o que não tem perdão
Porque os outros têm medo mas tu não

Porque os outros são os túmulos caiados
Onde germina calada a podridão.
Porque os outros se calam mas tu não.

Porque os outros se compram e se vendem
E os seus gestos dão sempre dividendo.
Porque os outros são hábeis mas tu não.

Porque os outros vão à sombra dos abrigos
E tu vais de mãos dadas com os perigos.
Porque os outros calculam mas tu não.

Inês Dias de Carvalho disse...

POIM!

ai ai.... flutuar.aterrar.flutuar.........flutuar...

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