segunda-feira, 11 de fevereiro de 2008

Era quase meia-noite quando soube da notícia e o primeiro pensamento que me veio à cabeça foi “também eu lhe dava um tiro” (eu sei, mórbido, mas honestamente foi o que pensei). A mãe chamou-me “ó Sara, vês, vês a notícia no rodapé?” (o som/imagem eram sobre a semana futebolística, que como sempre dá muito que falar). Desvalorizei os resumos que corriam no fundo do ecrã, mas refugiei-me no meu quarto e rapidamente me apercebi do que se estava a passar.
O segundo pensamento que tive foi de cepticismo: o Major Reinado morreu? Desconfio.
Ele é uma mistura de Bin Laden tropical com Gauchito Gil guerrilheiro, e a imprensa internacional conseguiu fazer com que a sua figura se tornasse mítica por esse mundo fora. Incrível é a forma como os textos jornalísticos conseguem passar a imagem do foragido inalcançável que todos tentam apanhar e, lá, ele está à distância de um telefonema. O ano passado antes da minha ida, todos os dias havia notícias do Reinado, camuflado das montanhas, e fiquei desarmada quando num almoço tranquilo com o Tozé num restaurante vazio de Díli, a dona do estabelecimento com quem estávamos a falar recebe uma chamada do major, que estava mesmo ali no bairro ao lado – “Tozé, queres entrevistá-lo?”. Ontem fiquei confusa, porque estava quase certa que ele é protegido dos australianos e o desenrolar da história deixou-me sem perceber nada. Toda esta crise timorense tem tanto de obscuro…
O terceiro pensamento foi “porquê? Porquê agora que decidi voltar?”.
Caneco, estava tudo tão calmo. Já imaginava o meu regresso a um país diferente do que conheci o ano passado em período eleitoral, com menos obrigações de segurança no dia-a-dia, menor instabilidade emocional dos alunos, com passeios nocturnos na marginal, talvez menos tropas musculados a patrulhar as ruas. Esperava até mesmo quiçá ver olhares mais confiantes em vez da tristeza que invade as feições desde a infância timorense. Agora, estado de sítio decretado, horário de recolher obrigatório. Cheguei a pensar que isto foi tudo engendrado por quem não quer que eu regresse a Timor, só para chatear.
Vejo o aluno Nélio online e pergunto-lhe o que se passa. Ele não sabe bem, diz que reza para que tudo fique calmo. Diz duas palavras no meio do português arranhado que me deixam triste: krise e situazi. A situazi é um estado de espírito semelhante ao que nos assola pelo Dom Sebastião que não regressou. Indica um período conturbado que deixou marcas profundas de medo nos jovens. Funciona como desculpa para não se fazer os trabalhos de casa, para desatar a correr nos corredores da universidade em pânico porque a caixa eléctrica no vão das escadas ardeu, e mais uma série de comportamentos que quase não compreendo. Os alunos gostam de falar, o professor malai tem uma atitude imparcial, como deve ser.
E agora, que irá acontecer?
Eu acredito no meu projecto e sei que pode fazer muito pelo país, porque vai trazer conhecimento àqueles que o vão governar daqui a uns anos. Para mim, os maiores perigos de Timor são os mosquitos e as estradas. Professores envolvidos na vida política local, não vivem no bairro, ameaçam a tranquilidade dos outros. Vou para lá fazer o meu trabalho, lançar as minhas pedras pelo futuro do país que nada têm a ver com as outras, do conflito. Elas voam sim, mas por cima de mim (sou pequenina).
Se ele está mesmo morto, ter como sucessor da liderança rebelde alguém que faz golpes falhados - e se chama Gastão Salsinha - dá que pensar. Pode ser que a guerrilha disperse e desfrute da água turquesa da mais jovem nação do mundo.
Faço figas e espero que tudo acalme. Respiro fundo e espero mesmo.

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