quarta-feira, 20 de fevereiro de 2008

...um diálogo hilariante assinado pelo Fernando Pessoa! Leiam, vale a pena!


"(...) -O seu olhar tem qualquer cousa de música tocada a bordo de um barco, no meio misterioso de um rio com florestas na margem oposta.
- Não diga que é uma noite fria de luar. Abomino as noites de luar... Há quem costume realmente tocar música nas noites de luar...
- Isso também é possível... E é lamentável, está claro... Mas o seu olhar tem realmente o desejo de ser saudoso de qualquer cousa... Falta-lhe o sentimento que exprime... Acho na falsidade da sua expressão uma quantidade de ilusões que tenho tido...
- Creia que sinto às vezes o que digo, e até, apesar de mulher, o que digo com o olhar...
- Não está sendo cruel para consigo própria? Nós sentimos realmente o que pensamos que estamos sentindo? Esta nossa conversa, por exemplo, tem visos de realidade? Não tem. Num romance não seria admitida.
- Com muita razão... Eu não tenho a absoluta certeza de estar falando consigo, repare... Apesar de mulher, criei-me um dever de ser estampa de um livro de impressões de um desenhista doido... Tenho em mim detalhes exageradamente nítidos... Dá um pouco, bem sei, a impressão de realidade excessiva e um pouco forçada... Acho que a única cousa digna de uma mulher contemporânea é este ideal de ser estampa. Quando eu era criança criança queria ser a rainha de um naipe qualquer num baralho de cartas antigo que havia em minha casa... Achava esse mister de uma heráldica realmente compassiva... Mas quando se é criança, tem-se aspirações morais destas... Só depois, na idade em que as nossas aspirações são todas imorais é que pensamos nisso a sério...
- Eu como nunca falo a crianças creio no instinto artístico delas... Sabe, enquanto estou falando, agora mesmo, eue stou querendo penetrar o íntimo sentido dessas cousas que me estava dizendo... Perdoa-me?
- Não de todo... Nunca se deve devassar os sentimentos que os outros fingem que têm.
São sempre demasiado íntimos... Acredite que me dói realmente estar-lhe fazendo estas confidências íntimas, que, se bem que todas elas falsas, representam farrapos da minha pobre alma... No fundo, acredite, o que somos de mais doloroso é o que não somos realmente, e as nossas maiores tragédias passam-se na nossa ideia de nós.
- Isso é tão verdadeiro… Para quê dizê-lo? Feriu-me. Para que tirar à nossa conversa a sua irrealidade constante? Assim é quase uma conversa possível, passada a uma mesa de chá, entre uma mulher linda e um imaginador de sensações.
- Sim, sim… É a minha vez de pedir perdão… Mas olhe que eu estava distraída e não reparei realmente em que tinha dito uma cousa justa… Mudemos de assunto… Que tarde que é sempre! Não se torne a zangar… Olhe que esta minha frase não tem sentido absolutamente nenhum…
- Não me peça desculpas, não repare em que estamos falando… Toda a boa conversa deve ser um monólogo de dois… Devemos, no fim, não poder ter a certeza se conversámos realmente com alguém ou se imaginámos totalmente a conversa… As melhores e as mais íntimas conversas, e sobretudo as menos moralmente instintivas, são aquelas que os romancistas têm entre duas personagens das suas novelas… Como exemplo…
- Por amor de Deus! Não ia decerto citar-me um exemplo… Isso só se faz nas gramáticas; não sei se se recorda que até nunca os lemos.
- Leu alguma vez uma gramática?
- Eu nunca. Tive sempre uma versão profunda a saber como se dizem as cousas… A minha única simpatia, nas gramáticas, ia para as excepções e para os pleonasmos… Escapar às regras e dizer cousas inúteis resume bem a atitude essencialmente moderna. Não é assim que se diz?
- Absolutamente… O que tem de antipático nas gramáticas (já reparou na deliciosa impossibilidade de estarmos falando neste assunto?) – o que há de mais antipático nas gramáticas é o verbo, os verbos… São palavras que dão sentido às frases… Uma frase honesta deve sempre poder ter vários sentidos… Os verbos!... Um amigo meu que se suicidou – cada vez que tenho uma conversa um pouco longa suicido um amigo – tinha tencionado dedicar a sua vida a destruir os verbos…
- (Ele porque se suicidou?)
- Espere, ainda não sei… Ele pretendia descobrir e fixar o modo de não completar as frases sem parecer fazê-lo. Ele costumava dizer-me que procurava o micróbio da significação… Suicidou-se, é claro, porque um dia reparou na responsabilidade imensa que tomara sobre si… A importância do problema deu-lhe cabo do cérebro… Um revólver…
- Ah, não… Isso de modo algum… Não vê que não podia ser um revólver?...
Um homem desses nunca dá um tiro na cabeça… O senhor pouco se entende com os amigos que nunca teve… É um defeito grande, sabe?... A minha melhor amiga – uma (deliciosa) rapaz que eu inventei.
- Dão-se bem?
- Tanto quanto é possível… Mas essa rapariga, não imagina, (…)"

2 bitaites:

Inês Dias de Carvalho disse...

hilariante e genial... qual monty python e gatos fedorentos...!!!

Já agora... onde encontraste tu esta pérola... onde está essa ostra???:p

sarita disse...

ora vê este (demasiado longo pra publicar aqui...). Lindo!

http://pt.wikisource.org/wiki/Educa%C3%A7%C3%A3o_sentimental

beijo

Enviar um comentário

 

Copyright 2006 | Template cedido por GeckoandFly e modificado e convertido para Blogger Beta porBlogcrowds.
Muito obrigada :) Se queres conteúdo reproduzir, basta pedir!